A permanência da forma

Paralelamente à pintura, desenvolvo estudos digitais que funcionam como um laboratório de investigação visual. Neles experimento relações entre cor, silêncio, repetição, atmosfera e espaço antes que essas questões retornem à matéria pictórica. Essas imagens não substituem a pintura. Elas ampliam sua possibilidade de pensamento.

Minha produção não está organizada por técnicas, mas por perguntas. Cada série representa uma etapa dessa investigação contínua, onde pintura, colagem e processos digitais dialogam como diferentes linguagens de uma mesma pesquisa.

Hoje minha pintura aceita a incompletude como parte da linguagem. Formas interrompidas, elementos parcialmente ocultos e estruturas que recusam uma conclusão definitiva não representam ausência, mas permanência. Interessa-me aquilo que continua existindo mesmo quando já não pode ser visto por inteiro. É nesse território — entre memória, matéria e percepção — que minha pesquisa encontra sua continuidade.

A pintura permanece onde a imagem desaparece.

Ao longo de mais de três décadas, minha pintura tem sido um exercício contínuo de observação. Não da realidade exterior, mas das estruturas invisíveis que organizam a percepção. Desde as primeiras obras, flores, círculos, geometrias e elementos ornamentais surgiram como um vocabulário recorrente. Com o tempo, compreendi que nunca foram o verdadeiro tema do meu trabalho. Eram apenas o caminho.

Hoje, minha pesquisa investiga a permanência da forma.

Nem toda forma precisa permanecer inteira para continuar existindo.

Interessa-me o instante em que uma imagem deixa de representar um objeto e passa a existir como memória, ritmo, vestígio e presença. Trabalho para compreender como uma forma continua viva mesmo quando parte dela desaparece, é interrompida ou se dissolve sob novas camadas de matéria.

A pintura tornou-se um território de construção e apagamento. Veladuras, colagens, raspagens, transparências, gestos e sobreposições convivem com estruturas geométricas rigorosas e elementos orgânicos recorrentes. Não procuro equilíbrio entre ordem e caos; procuro compreender como ambos podem coexistir na mesma superfície.